Valéria Mendez

A Primeira Vedeta Internacional do Fado

 

Desenganem-se as "amáliazinhas" que por aí pululam, armadas em vedetas, pensando que "descobriram a pólvora", lá porque foram cantar a Londres, a Paris ou a Nova Yorque, apadrinhadas pelos provincianos "média" portugueses que, com certos nomes, fazem disso alarde, como se fosse a primeira vez que o Fado, tivesse tido honras de figurar na agenda internacional da musica. Mas isso são outros quinhentos...

Lá na Caparica, aldeia piscatória, recheada de praias magníficas, nasceu em 1902,a primeira grande estrela do Fado, a nível internacional.
Hoje, nome de rua, na Caparica que a viu nascer, ERCÍLIA COSTA, é esquecida por quem nunca dela se haveria de olvidar, dadas as portas que abriu, a um estilo de musica confinado a uma Lisboa dos Bairros, e a meia dúzia de vozes que o cantavam profissionalmente, donde se destacavam uma BERTA CARDOSO, um JOAQUIM CAMPOS, uma MARIA VITÓRIA, que o destino condenara à mesma sorte da primeira grande estrela do Fado de Lisboa, a grande MARIA SEVERA -a morte por tuberculose aos 24 anos - um ano menos que a própria Severa viveu. Estavam ainda por chegar ao galarim do Fado, o MARCENEIRO, A HERMÍNIA, A AMÁLIA...
Em meados da década de 20, ERCÍLIA COSTA, era já uma artista admirada e conhecida a nível nacional. Conseguira sair do ghetto fadista de Lisboa, alcançando notoriedade em diversos locais do País, e encabeçando os cartazes das melhores Casas de Fado da capital. Apelidada por muitos como a "Santa do Fado", por cantar sempre de mãos postas, como que a fazer uma prece, a fadista gravou pela primeira vez em 1929, acompanhada daquele que era na época, o melhor executante de guitarra portuguesa, que ainda viria a acompanhar o Marceneiro, a Hermínia, e Amália, no inicio da sua carreira: o grande ARMANDINHO, que também se tornou autor de muitas musicas do chamado Fado Tradicional. No celebérrimo CAFÉ LUSO, a "Santa do Fado", partilhava os aplausos, com BERTA CARDOSO e JOAQUIM CAMPOS, autor dos famosos, e sempre actuais, ‘ Fado Vitória’ e ‘ Fado Tango', que anos mais tarde, AMÁLIA RODRIGUES utilizaria para cantar dois poemas extraordinários de dois grandes poetas: O "Povo que lavas no rio" de Pedro Homem de Mello, e o "Cansaço", de Luís de Macedo. Em Madrid, uma autentica comitiva fadista do "Café Luso" - Armandinho, o viola Georgino de Sousa, e os fadistas Ercília Costa, Berta Cardoso, Joaquim Campos e Cecília de Almeida, gravaram para a Odéon, conhecida editora da época, 50 fados que viriam a integrar os primeiros discos desses artistas.
Foi porém ERCÍLIA COSTA, que chamou mais à atenção do público e da crítica. Nos anos 30,a "Santa do Fado" era já vedeta do Teatro Variedades, como figura principal da companhia de Vasco Santana e Mirita Casimiro. Em consequência desta visibilidade, Ercília Costa parte para Paris, com contractos na "Comédie Française" no "Champs Elysées", sala maior de Paris, que já acarinhara a grande JOSÉPHINE BAKER, vinda dos Estados Unidos, e a própria MISTINGUETT, a antecessora de EDITH PIAF, não em termos de estilo, mas de notoriedade e sucesso, em toda a França.
No final dos anos 30, Ercília Costa actua na FEIRA MUNDIAL DE NOVA IORQUE, ao lado do fadista aristocrático CARLOS RAMOS. Esta actuação abriu-lhe as portas duma América sequiosa de vedetas europeias, chegando até a actuar em Hollywood, tornando-se amiga de nomes como BING CROSBY e GARY GRANT. Regressada a Lisboa, a primeira star internacional do Fado, depara-se com uma Lisboa fervilhante no início dos anos 40, dada a neutralidade política de Portugal, em relação à II Guerra. No Café Luso, ainda imperavam as vozes de Berta Cardoso, de Joaquim Campos, dum Carlos Ramos, dum Alfredo Marceneiro, que entretanto se havia imposto como grande estilizador do Fado, e, no meio dos grandes, muito a medo, debutava uma jovem desconhecida, de nome ... AMÁLIA.

A Editora TRADISOM recuperou para CD, todas as gravações disponíveis de ERCÍLIA COSTA, acompanhada pelo mestre ARMANDINHO, editadas em 1930, simultaneamente em Lisboa e Londres, disco esse indispensável, para uma correcta compreensão do Fado, enquanto estilo musical.

A "Santa do Fado" retirar-se-ia em 1954, e em 1972, abriria uma excepção, regravando alguns dos seus fados, sob insistência da editora Continental.
Viria a falecer, em Novembro de 1986, na sua casa de Algés, em Lisboa.
Poucos artistas se dignaram estar presentes no seu funeral. Havia-se esquecido, aquela que levara o Fado, pela primeira vez, ao prestígio das grandes salas do mundo. A tal jovem desconhecida, que debutara ao seu lado, no Café Luso, não se esqueceu de Ercília. Esteve lá, a acompanhá-la até à sua última morada. Numa coroa de flores sobre o caixão, havia um cartão assinado: Amália Rodrigues.

Valéria Mendez

 

 

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