
FADO FALADO |
Valéria Mendez |
De Proscrita a Ícone duma Música Urbana
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Ainda no século XIX, os fadistas eram vistos como proscritos, vagabundos de hábitos duvidosos, cambada de chulos e rameiras, perigosos para a sociedade. Havia até a expressão - "Aquilo é um fadista!" - designando um bêbado ou um rufia, de forma depreciativa. Cantava-se o Fado nas tabernas e cafés, daquela Lisboa do Bairro Alto, Madragoa, Alfama ou Mouraria, a troco de nada e um copo de vinho. Os aristocratas mais aventureiros, anónimamente, esgueiravam-se bairro adentro, seduzidos pela vida da populaça, e pela magia do "bas-fond" lisboeta, sempre acompanhado por aquela musica dolente... Um deles, o Conde de Vimioso, tornara-se cliente habitual das tascas, e tomara-se d'amores por uma jovem morena, que cantava o Fado, como que se lhe pesasse sobre os ombros, as desditas e alegrias de toda uma Lisboa - Chamava-se MARIA SEVERA, e seria até à sua prematura morte, aos vinte e cinco anos de idade, a paixão do Conde, que viria a tornar-se publica, objecto de tricas e mexericos no Terreiro do Paço, de comentários de todo o tipo, uns a favor, outros contra, um nobre parente real, se haver "enrolado" nos braços duma fadista. Longe, estavam ainda, os tempos das revistas "côr-de-rosa", dos "papparazzi" e dos "big brother" das celebridades; porém, e porventura antevendo o grande negócio que, um século depois, seria a exposição mediática tal qual a conhecemos hoje, alguns caricaturistas e jornais da época, experimentaram o gosto de parodiar a situação, alguns aproveitando para criticar o Poder dominante, outros ironizando, sobre a vida dupla e hipócrita, de alguns nobres boémios. A verdade, é que foi devido a este romance "público" e assumido, interrompido pela tuberculose mortal da Severa, que o Fado, adquiriu maior visibilidade, junto da vigente classe médio-burguesa, e da nobreza do País. Desaparecida a Severa, os poetas populares dedicaram ao seu romance de cinderela, inúmeros versos, alguns dos quais, eram aproveitados pelos fadistas, vindo tudo isto, a cimentar o mito e a lenda de MARIA SEVERA. Nascera assim, a primeira grande estrela do Fado, que o grande Pintor Malhoa, um dia, imortalizou.
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